Tive simultaneamente a sorte e o privilégio de ser ensinado por dois fantásticos professores de Clarinete. Foram pessoas que marcaram a minha vida de forma subtilmente imperceptível e com as quais estarei eternamente em dívida. Se de nada mais este texto servir, ficam o meu reconhecimento e agradecimento aos professores Fernando Raínho e António Rosa.
Aos 12 ou 13 anos de idade não há muito espaço para metafísica ou palavras sábias na nossa cabeça. Pelo menos, julgo que assim comigo acontecia. Normalmente, aquilo que identificava como estranho ou potencialmente complexo, guardava numa arrumação, na esperança de um dia vir a entender.
No outro dia, quando falava com uns colegas, à hora de almoço, acerca da escola e da forma como tínhamos feito o nosso percurso académico, lembrei-me dos meus tempos de Conservatório, em Aveiro. Lembro-me que era uma casa onde toda a gente se sentia bem. Onde não se percebia qualquer réstia de tédio ou desmotivação. Onde as pessoas estavam muitas vezes até às 22:00 depois de um já longo dia na escola, e onde ninguém se importava de ter aulas ao Sábado às 8:00. Posto isto, saltou-me à mente o 1º momento de avaliação do meu 1ºgrau com o meu 1º professor de Clarinete. Estávamos em Dezembro e era a minha última aula do trimestre. Entrei na sala às 18:00 como era habitual, e ele pediu-me para não preparar o Clarinete, porque íamos falar apenas. Puxei uma cadeira e sentei-me em frente a ele. Abriu um dossier e de lá puxou uma folha de papel, toda escrita, cheia de números e pontos de exclamação. Disse-me: "Sabes o que é isto?", e eu respondi que não. Continuou: "Isto, é a tua folha de aluno. Tenho aqui todas as notas de todas as tuas aulas. E no final, tenho a tua média... Sabes o que vou fazer com isto?", ao que eu voltei a responder que não. Logo a seguir, começou a rasgar a folha de forma aleatória e colocou tudo no lixo. Perguntou-me: "Gostas de música? De tocar Clarinete? Gostas mesmo?". Disse-lhe que sim e ele concluiu: "Óptimo, então não vamos precisar daquela folha para nada!"
Na altura, julgo não ter percebido toda a mensagem. Mas entendi que o que importava era gostar daquilo que fazia. Então, dei por mim no meu 5ºgrau, 12º ano na escola, a tocar simultaneamente no Quarteto de Clarinetes que ensaiava à 4ªfeira das 18 às 20, no Octeto de Sopros à terça das 19 às 21, na Orquestra de Clarinetes à 5ª das 19 às 21:30, e, sempre que podia, na Banda Sinfónica ao Sábado das 10:30 às 13:30. Assistia simultaneamente a duas turmas de Formação Musical - 4ª e Sábado - e tinha também Coro à 2ª das 18 às 20. Sabia que o 12ºano era obviamente decisivo, mas nunca abdiquei um dia só de ir ao Conservatório.
Na escola nunca foi assim. Nem comigo, nem com a esmagadora maioria das pessoas que conheço - e isso mesmo estávamos a discutir enquanto almoçávamos. Gostava, regra geral, de todas as matérias e daquilo que aprendia, mas não via as coisas da mesma forma. Estar na escola não era uma grande motivação, e sempre que tinha um furo apanhava o autocarro e ia estudar para o Conservatório. Mas também os meus colegas me iam dizendo o mesmo - não gostavam verdadeiramente de andar na escola.
Depois de estarmos algum tempo à conversa, percebemos que há uma grande crise de valores no ensino tradicional. Valorizam-se as mecanizações e os resultados finais, mas não o processo de aprendizagem. Não se estimula o "gostar de estudar", mas antes o trabalhar muito para o teste Z. Não se premeia aqueles que aprendem, mas sim os que fazem, e de preferência de forma rápida e sem pensar muito. Criam-se marionetas de malabarismos eficientes, criam-se essencialmente robots engenhosamente programados, mas não se lhes transmitem os mecanismos do pensamento.
Na música é usual dar-se primazia à "forma de dizer" e não ao "dizer", e isso faz toda a diferença. Na escola, é exactamente o oposto. Tendem a ser valorizados os que dizem ao invés de o também serem aqueles que sempre se preocuparam com a forma de dizer.
A meu ver, tudo isto leva a que os alunos se sintam desmotivados, entediados e cansados.
Honestamente, ainda bem! É sinal de que são saudáveis!