Friday, November 20, 2009

Aprender a Não Ensinar Assim


Tive simultaneamente a sorte e o privilégio de ser ensinado por dois fantásticos professores de Clarinete. Foram pessoas que marcaram a minha vida de forma subtilmente imperceptível e com as quais estarei eternamente em dívida. Se de nada mais este texto servir, ficam o meu reconhecimento e agradecimento aos professores Fernando Raínho e António Rosa.

Aos 12 ou 13 anos de idade não há muito espaço para metafísica ou palavras sábias na nossa cabeça. Pelo menos, julgo que assim comigo acontecia. Normalmente, aquilo que identificava como estranho ou potencialmente complexo, guardava numa arrumação, na esperança de um dia vir a entender.

No outro dia, quando falava com uns colegas, à hora de almoço, acerca da escola e da forma como tínhamos feito o nosso percurso académico, lembrei-me dos meus tempos de Conservatório, em Aveiro. Lembro-me que era uma casa onde toda a gente se sentia bem. Onde não se percebia qualquer réstia de tédio ou desmotivação. Onde as pessoas estavam muitas vezes até às 22:00 depois de um já longo dia na escola, e onde ninguém se importava de ter aulas ao Sábado às 8:00. Posto isto, saltou-me à mente o 1º momento de avaliação do meu 1ºgrau com o meu 1º professor de Clarinete. Estávamos em Dezembro e era a minha última aula do trimestre. Entrei na sala às 18:00 como era habitual, e ele pediu-me para não preparar o Clarinete, porque íamos falar apenas. Puxei uma cadeira e sentei-me em frente a ele. Abriu um dossier e de lá puxou uma folha de papel, toda escrita, cheia de números e pontos de exclamação. Disse-me: "Sabes o que é isto?", e eu respondi que não. Continuou: "Isto, é a tua folha de aluno. Tenho aqui todas as notas de todas as tuas aulas. E no final, tenho a tua média... Sabes o que vou fazer com isto?", ao que eu voltei a responder que não. Logo a seguir, começou a rasgar a folha de forma aleatória e colocou tudo no lixo. Perguntou-me: "Gostas de música? De tocar Clarinete? Gostas mesmo?". Disse-lhe que sim e ele concluiu: "Óptimo, então não vamos precisar daquela folha para nada!"

Na altura, julgo não ter percebido toda a mensagem. Mas entendi que o que importava era gostar daquilo que fazia. Então, dei por mim no meu 5ºgrau, 12º ano na escola, a tocar simultaneamente no Quarteto de Clarinetes que ensaiava à 4ªfeira das 18 às 20, no Octeto de Sopros à terça das 19 às 21, na Orquestra de Clarinetes à 5ª das 19 às 21:30, e, sempre que podia, na Banda Sinfónica ao Sábado das 10:30 às 13:30. Assistia simultaneamente a duas turmas de Formação Musical - 4ª e Sábado - e tinha também Coro à 2ª das 18 às 20. Sabia que o 12ºano era obviamente decisivo, mas nunca abdiquei um dia só de ir ao Conservatório.

Na escola nunca foi assim. Nem comigo, nem com a esmagadora maioria das pessoas que conheço - e isso mesmo estávamos a discutir enquanto almoçávamos. Gostava, regra geral, de todas as matérias e daquilo que aprendia, mas não via as coisas da mesma forma. Estar na escola não era uma grande motivação, e sempre que tinha um furo apanhava o autocarro e ia estudar para o Conservatório. Mas também os meus colegas me iam dizendo o mesmo - não gostavam verdadeiramente de andar na escola.

Depois de estarmos algum tempo à conversa, percebemos que há uma grande crise de valores no ensino tradicional. Valorizam-se as mecanizações e os resultados finais, mas não o processo de aprendizagem. Não se estimula o "gostar de estudar", mas antes o trabalhar muito para o teste Z. Não se premeia aqueles que aprendem, mas sim os que fazem, e de preferência de forma rápida e sem pensar muito. Criam-se marionetas de malabarismos eficientes, criam-se essencialmente robots engenhosamente programados, mas não se lhes transmitem os mecanismos do pensamento.

Na música é usual dar-se primazia à "forma de dizer" e não ao "dizer", e isso faz toda a diferença. Na escola, é exactamente o oposto. Tendem a ser valorizados os que dizem ao invés de o também serem aqueles que sempre se preocuparam com a forma de dizer.

A meu ver, tudo isto leva a que os alunos se sintam desmotivados, entediados e cansados.

Honestamente, ainda bem! É sinal de que são saudáveis!

Friday, November 13, 2009

O Ilustre Paradigma da CP


Há já muito tempo que acho que a CP (Comboios de Portugal) daria um apetecível case study. Contrariamente ao que se possa pensar, o seu target não se extinguiria estritamente nas áreas mais analíticas (como a Economia ou as Finanças), podendo e devendo ser alargado às ciências tradicionalmente humanísticas (como a Psicologia, a Sociologia ou a Antropologia).

Quando em 2007 troquei Aveiro por Lisboa, comecei a ser um assíduo cliente da CP. Viajo, regularmente, à Sexta e ao Domingo nos Intercidades das 19:30 e 17:30, respectivamente. Apesar de já o saber de antemão, pude confirmá-lo na primeira pessoa: o comboio chega sempre atrasado. Para que se possa perceber a extensão do "sempre", deixo uma amostra pouca aleatória, mas claramente significativa: nas últimas 20 viagens que fiz, cheguei 20 vezes depois da hora estabelecida.

Olhando para os dados, a primeira coisa que me vem à cabeça é: "Porra, por que é que não mudam os horários???" Aparentemente, é a solução mais sensata. Se nunca conseguem fazer o percurso Lisboa-Aveiro em 2 horas e meia, então, talvez seja melhor estabelecerem uma nova duração, que contemple o atraso médio por viagem - algo como 2:45. Mesmo em termos estratégicos, o posicionamento da CP é absurdo. A maior parte dos clientes não confia minimamente no rigor do serviço que lhes é prestado - o que podia ser francamente evitado com a política que proponho. Afinal, ninguém se importaria de demorar mais 15 minutos a chegar ao seu destino e, simultaneamente, abolia-se a frequente contestação que se faz sentir nas carruagens sempre que o monocórdico aviso é feito pelo maquinista.

A meu ver, o problema não reside na duração da viagem, mas sim no atraso. As pessoas ficam impacientes e insatisfeitas por saberem que alguém está a faltar ao prometido. É algo natural e humano, algo espontâneo e não obrigatoriamente racional.

Mas afinal, que razões poderão justificar o problema da CP? Eu não as sei, e dificilmente alguém que não esteja dentro da indústria as poderá saber. Ainda assim, sempre associei à empresa uma certa ideia de ineficiência e desorganização, hipoteticamente justificadas pelo seu carácter estatal. No entanto, ressalvo que não assumo qualquer relação directa de necessidade ou suficiência entre estas realidades. Pragmaticamente, sempre me baseei em causas ligadas ao desempenho e, portanto, resolúveis em termos estruturais.

Há pouco tempo, quando alguém me fez relembrar um artigo da "Science & Vie" que li algures no meu 12ºano, percebi o quão errado poderia estar. Afinal, a justificação pode residir na nossa percepção do tempo. Grosso modo, existem 2 formas de o entender, que acabam por evidenciar dois diferentes tipos de culturas: as monocrónicas e as policrónicas. Numa cultura monocrónica, o tempo é percepcionado como uma linha única, não havendo, portanto, lugar a desvios. Para que melhor se perceba a ideia, tomemos um exemplo: Se uma pessoa pertencente a uma cultura monocrónica sair de casa com vista a chegar à hora X ao local Y, manter-se-á focada no seu percurso, evitando motivos de desvio que lhe apareçam (como por exemplo, encontrar um conhecido e com ele ficar a falar). Assim sendo, será muito menos provável que neste tipo de cultura as pessoas se atrasem, dado que nunca saem da linha de tempo (única!) que as guia. Por outro lado, apresentam-se as culturas policrónicas, para as quais, por oposição, o tempo é entendido como múltiplas linhas paralelas. Isto significa que os desvios são incorporados e aceites como normais. Pegando no nosso anterior exemplo, uma pessoa de cultura policrónica abandonará a linha que a conduz ao local Y à hora X sempre que encontrar um bom motivo para o fazer, saltando, para isso, para outra linha de tempo completamente diferente. Ora, isto justifica o facto de, tipicamente, se chegar atrasado em países policrónicos.

Bons exemplos da primeira descrição são os países Escandinavos, ao passo que os países Latinos se enquadram na segunda.

Sendo a CP uma pura empresa Portuguesa - cultura claramente policrónica - e uma viagem de comboio uma fonte privilegiada de desvios fáceis de linha temporal, faz todo o sentido que esta não se paute pela pontualidade. Aliás, vendo as coisas desta forma, só temos de estar contentes com a grande dádiva de conseguirmos chegar atrasados!

Friday, November 6, 2009

O Homo Econometricus


A Estatística é, grosso modo, uma ciência matemática que se dedica à recolha, tratamento, e análise de informação. Embora não seja efectiva uma localização temporal da sua génese, muitos autores assumem que o seu real aparecimento se insere em meados do século XVII.

Para um estudante de Economia ou Gestão, trata-se de uma das mais desafiantes disciplinas ao longo da licenciatura, sendo, indubitavelmente, uma fonte privilegiada de pautas finais em forma de número de telefone. Em termos pragmáticos, há coisas mais fáceis de estudar! No entanto, e falando a tom pessoal, é algo tremendamente interessante, não apenas por utilizar de forma harmoniosa a matemática, mas também por adquirir, em grande parte das situações, uma enorme natureza intuitiva.

A Estatística é caracterizada, a meu ver, por se sustentar em hipóteses bastante complexas, mas, simultaneamente, sensatas. Por outro lado, de modo antitético, temos a Economia: hipóteses geralmente simples e geralmente irrealistas [o blogspot não me deixa escrever "estúpidas"].

Por ironia do destino, acontece que muitos economistas se deixam envolver pela Estatística, e, então, começam a inventar menus novos: Economia + Estatística. Assim sendo, eis que nasce a 8ª maravilha do planeta: a Econometria.

Afinal, o que se poderá esperar de uma junção entre coisas complexas, simples, sensatas e estúpidas? A resposta certa é: coisas ainda mais complexas e ainda mais estúpidas. Qualquer estudo económico que se faça, independentemente da finalidade que o identifique, tem de incluir uma boa análise econométrica. Se os resultados saírem desajustados, é fácil: incluem-se variáveis novas e manipula-se o R da regressão (grosso modo, valor indicativo da qualidade do estudo). É um 2 em 1: matemática dura para dar um ar profissional ao trabalho, e hipóteses económicas para tentar provar qualquer coisa.

A meu ver, nenhum mal daqui adviria ficasse a Econometria fechada nos papers, nas faculdades, ou, nos relatórios dos Bancos Centrais. O problema aparece quando as empresas começam a encomendar estudos de mercado e baseiam as suas decisões em processos estritamente estatísticos ou econométricos. E por quê? Porque, segundo a minha humilde experiência de leitor dos jornais da ribalta económica, o mercado não parece gostar muito dos ditos estudos. Desconfio até que as pessoas respondem propositadamente de forma errada só para depois dizerem: "Mais um falhanço da estatística. Este tipos são piores do que os senhores da Meteorologia"...

Não obstante o facto de serem frequentes e crassos os erros de previsão de mercado, as empresas continuam a basear muitos investimentos naquilo que intervalos com grau de confiança de 95% dizem. A questão que se coloca é: então para que servem os estudos de mercado? A reposta é, para mim, bastante trivial. Um grupo diversificado de gente inteligente, em volta de uma mesa redonda, consegue, certamente, bater a maior parte das previsões que se fazem. Não digo que sejamos cegos à Econometria ou à Estatística (na verdade, importam e muito!), mas devem ser vistas como instrumentos, como meios, e jamais como um fim. Afinal, apesar de serem disciplinas difíceis e complexas, não têm, que se saiba, olhos, nem pensam autonomamente, coisa que o ser humano faz de forma admirável.

Para aqueles de vós que estão neste momento a pensar que tudo isto são fetiches meus, desenganem-se. Várias experiências baseadas em desempenhos do mercado financeiro indicam que os resultados ao longo do tempo são francamente aleatórios, não muito diferindo dos resultados associados ao lançamento de uma moeda. Outro exemplo muito interessante é o da Apple, com o iPod. Antes deste ter sido lançado, vários estudos encomendados pela empresa indicavam um potencial nº de unidades vendidas (no longo prazo) que, na realidade, se ultrapassou em menos de 1 ano.

O mercado empresarial deixa-se, consistentemente, ludibriar pela paradoxal incerteza dos números. Aquele que, até há bem pouco tempo, era conhecido como o Homo Economicus - racional decisor, detentor de perfeita informação, "maximizador" de utilidade - passa agora a ser substituído pelo Homo Econometricus. Por outras palavras, deixámos de recorrer a Lagrangeanas e Hessianas à medida que enchemos o carrinho de compras no Continente, para utilizar regressões múltiplas e testes de Durbin-Watson enquanto decidimos se arriscamos, ou não, no Euro-milhões.

Friday, October 30, 2009

Escola S.A.


Numa das muitas reportagens que as televisões exibiram para resumir os últimos 4 anos de Governo PS, focava-se a gigantesca manifestação de professores que teve lugar em Lisboa, junto ao Marquês. Por entre a multidão, lia-se num cartaz: "A escola não é uma empresa!". De resto, basta "googlar" a expressão e os resultados são evidentes.

Posto isto, decidi começar a pensar naquela frase, e em que medida podia, ou não, ser considerada válida. Lembrei-me logo das escolas privadas, e rapidamente concluí que algo ali estava errado. Afinal, ao criar um colégio, não estaria alguém a tentar maximizar o lucro de uma empresa? A mim, parece-me que sim!

Tentando não me saciar com o facilitismo da questão, decidi analisar os conceitos e os factos, de forma a enquadrar a escola pública num contexto microeconomicamente correcto de empresa. Assim sendo, comecei por enunciar os principais pontos a focar: o produto, as quantidades, o preço, os custos, as receitas,o lucro, e os objectivos.

No meu humilde modelo, os alunos seriam o Produto da empresa. Por quê? Porque, partindo da definição microeconómica, seriam algo obtido através da conjugação de inputs (i.e.: pessoas sem conhecimento, capital, tecnologia, trabalho) e que sofreriam um processo de transformação ao longo do tempo (aulas, testes, exames, debates), culminando, finalmente, num verdadeiro aluno com X habilitações literárias. As Quantidades seriam, por consequência, o número de alunos "produzidos" em cada ano lectivo. De seguida, olhando para o Preço como a disponibilidade marginal a pagar por cada produto, assumi que deveria ser visto como a média de cada aluno. Isto, porque, tipicamente, alunos com médias mais altas atingem cargos mais elevados e com remunerações mais expressivas. Simultaneamente, se as notas forem um bom indicador da qualidade do aluno, então, continua a fazer sentido achar que o "preço do aluno" é a sua média. No que diz respeito aos Custos da nossa empresa, muitos e evidentes são eles: salários dos professores e dos auxiliares, material escolar, água, luz, telefone, transportes, etc. No lado da Receita, apesar da coisa ser mais drástica, também há algo dizer: propinas dos alunos, vendas no bar, vendas na papelaria, organização de eventos, etc.

No final do dia, eis que chega a parte mais aliciante da empresa: o Lucro. Neste sentido, importa agora perceber que estamos no domínio público e, como tal, talvez não estejamos interessados em fazer as contas à boa moda antiga: Lucro = Receitas (típicas) - Custos. Por quê??? Porque as receitas de uma escola pública devem, a meu ver, ir muito além das propinas, das vendas do bar e da papelaria, ou mesmo da organização de eventos. Incluindo no modelo, mais uma vez, a boa teoria microeconómica, as Receitas são: Preço x Quantidades. Ora, pegando nas definições que fiz inicialmente destes 2 pontos, a Receita será dada por: Média dos Alunos x Quantidade "Produzida" de Alunos. Posto isto, o Lucro verdadeiro de uma escola pública deverá ser: Receitas (como as definimos) - Custos.

Se assim for, o Objectivo da empresa será maximizar o valor da expressão anterior, pelo que, todos estaremos interessados em produzir muitos e bons alunos, obviamente assumindo que a média é um indicador fidedigno da qualidade do aluno.

Depois de toda esta enfadonha análise, uma interessante conclusão me saltou à vista. Afinal, o cartaz estava errado: a escola é mesmo uma empresa! Se todos tentarmos maximizar o lucro desta forma, ela será, aliás, a maior e melhor empresa do mundo.

Friday, October 23, 2009

Um Trampolim Chamado Liberdade


Acho que andamos todos doidos!

Abro o jornal e leio títulos afrontosos, ligo a televisão e vejo uma onda de suicídios em massa, acedo à Internet e conheço difamadores, pego num livro e leio Deus apelidado de filho da puta... Afinal, o que vem a ser isto? De quem é a culpa???......[De ninguém!]

Vivemos a maior mentira dos últimos tempos. Achamos que a Liberdade é uma invenção super-sónica da Tomada da Bastilha e usamo-la como um trampolim. Não importa o que dizemos, não importa o que fazemos, não importa quem magoamos, não importa quem matamos, tudo é Liberdade...Somos livres, fazemos o que queremos porque somos livres! Deixámos de ponderar, deixámos de planear, deixamos de reflectir, deixaremos, um dia, de pensar... Porque já não é preciso! Quem é o estúpido que pensa o que diz quando é livre??? Quem é o retrógrado??? Liberdade é dizer o que se pensa, jamais pensar o que se diz! Liberdade é isto e aquilo, Liberdade é tudo, e tudo é Liberdade!

O ser humano criou a lâmpada para se livrar da escuridão, para poder ver mesmo quando o Sol se escondia. Depois, criou luzes tão, tão luminosas que hoje as usa para encandear quem lhe apetece. E o mesmo acontecerá com a Liberdade. Aquilo que se nos apresentou como uma dádiva começa a transformar-se num pesadelo. Esquecemo-nos de deveres e só invocamos direitos. O super-hiper-mega direito à Liberdade está em tudo o que se faz, e isso é que importa. Os deveres são uma chatice - o respeito pelo outro estava na Revolução de 1789 mas perdeu-se na viragem dos séculos. Ao que parece, o nosso espaço é infinitamente grande.

Na verdade, tudo isto é, indubitavelmente, uma coisa muito preocupante! As pessoas acham que podem dizer tudo o que lhes apetece sob o véu inquestionável da Liberdade. Isto é absurdo, completamente repugnante, e um ataque premeditado à dignidade humana. Por muito que custe ouvir, ninguém nasce com o direito de dizer tudo o que quer, nem aqui, nem em lado nenhum. Temos de entender que antes de seres livres, somos seres humanos, com forças e fragilidades, com sentimentos e expressões! Usar a Liberdade para colocar em causa o que nos caracteriza é aberrante e contra-natura. Não podemos desrespeitar e ferir indiscriminadamente aqueles que nos são semelhantes só porque nos apetece, só porque achamos que podemos, só porque achamos que sim. Ser livre é ser responsável, é ter bom-senso. Ser livre é saber ser livre!

A Liberdade deixou de ser um instrumento de verdade e progresso para se transformar numa arma destrutiva. Deixou de ser um mecanismo de protecção para ser uma fonte de ataques. Matámos para sermos livres, e continuamos a matar porque achamos que somos livres de o fazer. O que aconteceu na France Telecom é uma manifestação real daquilo que digo. Pensa-se que tudo se pode dizer, que tudo se pode exigir, e não é assim!

A meu ver, com tanta estupidez em todo o lado, deixámos de ter percepção do espaço do outro, e olhamos em nosso redor como se num deserto estivéssemos, o que é uma patética visão da sociedade. O respeito e o bom-senso são, cada vez menos, ingredientes da expressão verbal. Vivemos ofuscados pelo significado ilegítimo que quisemos atribuir a uma palavra, e transformámos a sociedade numa selvajaria sem nome, onde cada um diz o que pensa sem pensar, primeiro, no que diz. Tudo isto porque nos queremos convencer que podemos dizer tudo o que nos dá na real gana, e assim, de forma fugaz e irreflectida, passámos do 8 ao 80 sem perceber a importância da moderação.

A Liberdade talvez ainda vá sendo a possibilidade que tenho de escrever abertamente este texto, mas não tardará o dia em que isto deixe de ser verdade...Só porque outro ser humano se convenceu que tem a liberdade de me tirar a minha Liberdade!

Friday, October 16, 2009

Uma Equação de Membros Desiguais


Um dos melhores professores que tive até hoje dizia-me há pouco tempo, enquanto falávamos num corredor da faculdade, que cada vez mais achava que as pessoas eram estúpidas. Na altura, tomei aquela frase como mais uma prova do seu bom humor, e fiquei-me por ali sem sentir necessidade de a processar.

Um assunto sobre o qual muito se tem escrito e debatido é a igualdade entre géneros, não apenas no tradicional sentido lato, mas também numa acepção mais específica. Parando um pouco para reflectir, afinal, o que penso eu de tudo isto??? Bem, penso que o meu professor tem toda a razão!

Para mim, homens e mulheres não devem, jamais, cair na estupidez de se quererem igualar, porque são seres completamente diferentes. Partilham a mesma concepção biológica, quer em termos originários, quer em termos microscopicamente estruturais, mas são inegavelmente diferentes. Claro que não coloco, nem posso conceber colocar, qualquer tipo de distinção entre os direitos de uns e de outros. Quero eu dizer que ambos devem ser tratados exactamente da mesma forma enquanto cidadãos, isto é, devem ser vistos com os mesmos olhos pela Constituição, Justiça, Educação, Saúde, etc etc. Em termos pragmáticos, um homem deve ser absolutamente indistinguível de uma mulher em todas as matérias que envolvam a condição humana, a dignidade, a personalidade jurídica, e tudo o resto que não se anule com aquilo que escreverei de seguida. Neste sentido, o trabalho e evolução que se têm feito parecem-me claramente louváveis e producentes - e muito mais há ainda a fazer pelo globo fora, como facilmente percebemos olhando para o Médio Oriente.

Mas as coisas têm, a meu ver, tomado um rumo bacoco e obsessivo. Apesar das oportunidades deverem ser virtualmente iguais para os dois sexos, a concretização prática desta proposição não faz qualquer sentido. Os homens são, regra geral, seres física e mentalmente mais fortes, e estão preparados para desempenhar tarefas para as quais as mulheres não estão. Deixo um exemplo bem concreto: a oportunidade de obter uma posição numa empresa de construção civil deve estar em aberto para todos, mas isso não implica que as mulheres devam agora começar massivamente a ser trolhas, por variadíssimas razões - muitas delas salvaguardando mesmo a sua segurança e saúde. Estabelecendo uma análise paralela para o sexo masculino, também os homens devem entender que muitas profissões não se lhes adequam, apesar de, novamente, lhes deverem ser alcançáveis. Deixando um exemplo, os cargos de educação infantil devem ser privilegiadamente dirigidos ao sexo feminino, por serem as mulheres bastante mais sensíveis e dotadas de mecanismos paternais do que os homens. De modo a que fique bem claro, os homens não são melhores nem piores do que as mulheres - são DIFERENTES! Quero também afirmar que sou, publicamente, contra qualquer movimento sexista, independentemente de quem o conduz. Para mim, machismo e feminismo são coisas completamente infantis.

Consigo adivinhar que muita gente esteja agora a pensar: "Ah, mas eu tenho uma amiga que é óptima construtora civil", ou, "O meu primo é um excelente educador de infância", e aquilo que vos posso dizer é: muito bem, não tenho nada contra isso, mas eu nunca escolheria uma mulher para construir a minha casa, nem um homem para ajudar o meu filho a crescer. Por quê??? Porque respeito a História e a Estatística!

Outra coisa que acaba por ser caricata é o retrocesso que muitas vezes se verifica. Como vamos percebendo, as taxas de natalidade nos países em que estes movimentos se têm desenvolvido são cada vez menores, o que impacta directamente na redução da população activa. Mas aquilo que importa analisar são os incentivos reivindicados pelo sexo feminino para inverter esta tendência, tais como: alargamento da licença de maternidade, aumento dos subsídios atribuídos, maior flexibilidade de horários, (...). Ora, isto acaba por ser uma forma de retrocesso; se se reivindica uma igualdade de direitos de acesso a todos os cargos, devem aceitar-se as consequências que daí advêm, e a realidade é que o desempenho das mais altas funções nem sempre é compatível com ausências prolongadas, horários flexíveis, e por aí fora. É, aliás, curioso verificar que em muitos dos países nórdicos as mulheres estão novamente a afastar-se de posições que outrora ocuparam, por começarem a perceber os resultados perversos que o movimento de emancipação impensada acarretou, nomeadamente no que diz respeito à educação e formação das mais novas gerações.

Não me querendo alongar mais, resta-me apenas terminar dizendo que, na minha opinião, a igualdade se pode atingir sem ser desta forma. Aquilo que importa é assegurar uma equivalência plena da cidadania, já que tudo o resto deve ser visto à luz da diferença que nos caracteriza, e isto aplica-se a ambos os lados. Um mundo civilizado não é aquele em que homens e mulheres fazem todos as mesmas coisas, mas sim aquele em que, percebendo e explorando as suas diferenças, se continuam a respeitar mutuamente a todos os níveis.
Espero, sinceramente, não ser mal interpretado com este texto. Afinal, não pretendo que esta seja a visão certa do problema, mas antes, que seja a minha visão tornada pública e aberta à discussão.


[P.S. Muito obrigado a todos os que têm perdido algum do seu precioso tempo a ler e comentar o que escrevo. Acredito que nem sempre seja a coisa mais elegante e simpática de se fazer!]

Friday, October 9, 2009

"Faster Than The Speed Of Light"


Hoje, utilizei as 2,5 horas teóricas (perto de 3 reais) da viagem de comboio entre Lisboa e Aveiro para, no meu iPod, ouvir um interessante seminário do famoso Físico português João Magueijo. [A bom título biográfico, João Magueijo é licenciado pela Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa e tem um PhD pela Universidade de Cambridge. Neste momento, é professor no Imperial College, em Londres.]

Quem me conhece mais de perto, sabe que nutro um enorme respeito por toda a Física Clássica, e um acentuado cepticismo por quase toda a Física Moderna. O seminário de hoje não podia vincar mais esta minha tendência.

Uma questão que sempre me deixava intrigado nos tempos em que estudava Física era a supra-sumidade do valor da velocidade da luz... Qualquer fórmula popular tinha de incluir a constante "c" e o seu respectivo inultrapassável número. O meu mal-estar sempre se prendeu com o facto de ouvir dizer que "c" era a constante estrutural de toda a Física. Na verdade, nunca fui capaz de entender a razão pela qual a velocidade do som era só a velocidade do som, a velocidade de um Ferrari em auto-estrada era tão somente a velocidade de um Ferrari em auto-estrada, mas a velocidade da luz era o tecto dos tectos... A própria teoria da Relatividade de Einstein usa e abusa deste valor.

A questão que se coloca é: E se a velocidade da luz não for nada mais do que isso, algo possivelmente ultrapassável? Mais: será que a velocidade da luz é constante ao longo do tempo, ou, varia como tantas outras realidades terráqueas? É aliás nesta última que João Magueijo se centra, abordando um conjunto de académicos e teorias que propuseram uma velocidade da luz varável (Variable Speed of Light).

Já todos percebemos que, quando estamos numa fila de trânsito, a velocidade do nosso carro relativamente à do carro à nossa direita ou esquerda varia consoante aceleramos ou travamos... No entanto, e isto é que é estranho, a teoria da Relatividade define que, se o carro que se encontra ao nosso lado for um raio de luz, a nossa velocidade relativamente a ele é SEMPRE a mesma, independentemente de acelerarmos ou travarmos. Isto obviamente implica que passemos a perceber o espaço e o tempo de forma diferente. Mas aquilo que importa aqui é que, mais uma vez, uma das hipóteses que sustentam amplamente a teoria é a constância e limitação absoluta da velocidade da luz. Por quê???

É óbvio que tudo isto é bastante mais complexo do que trânsito em filas paralelas, mas, nem eu sou detentor de mais conhecimento que me permita ir mais além, nem tal é estritamente necessário para aqui poder deixar algum texto para reflectirmos!

Aquilo que hoje fiquei a saber, e isso me deixou bastante mais aliviado, é que já muita gente inteligente começou a colocar em causa a constante "c", o que muita controvérsia tem gerado. Tudo isto porque a Física Moderna tem evoluído à custa da velocidade da luz, produzindo teorias que, a meu ver, mais se aproximam dos limites da Filosofia do que propriamente da Física. Aquilo que me parece é que deixámos de nos preocupar com questões fulcrais, como Newton bem o fez, e passámos a entrar numa dimensão completamente alienada da realidade, em que aquilo que se cria é de tal forma complexo e inverosímil (quando não mesmo incerto em termos matemáticos) que acaba por ser atacável por argumentos tão simples e concretos como este que aqui expus.

Antes de terminar o texto desta semana, quero só deixar bem claro que respeito todos aqueles que estudam e trabalham na Física Moderna, apenas não sou capaz de perceber a finalidade e verosimilhança daquilo que produzem. E afinal, não sou o único, Paul Dirac escreveu num paper que publicou em 1930, enquanto se encontrava na sua lua de mel "One field of work in which there has been too much speculation is cosmology. There are very few hard facts to go on, but theoretical workers have been busy constructing various models for the universe, based on any assumptions that they fancy. These models are probably all wrong".


Para todos, uma óptima semana!