Numa das muitas reportagens que as televisões exibiram para resumir os últimos 4 anos de Governo PS, focava-se a gigantesca manifestação de professores que teve lugar em Lisboa, junto ao Marquês. Por entre a multidão, lia-se num cartaz: "A escola não é uma empresa!". De resto, basta "googlar" a expressão e os resultados são evidentes.
Posto isto, decidi começar a pensar naquela frase, e em que medida podia, ou não, ser considerada válida. Lembrei-me logo das escolas privadas, e rapidamente concluí que algo ali estava errado. Afinal, ao criar um colégio, não estaria alguém a tentar maximizar o lucro de uma empresa? A mim, parece-me que sim!
Tentando não me saciar com o facilitismo da questão, decidi analisar os conceitos e os factos, de forma a enquadrar a escola pública num contexto microeconomicamente correcto de empresa. Assim sendo, comecei por enunciar os principais pontos a focar: o produto, as quantidades, o preço, os custos, as receitas,o lucro, e os objectivos.
No meu humilde modelo, os alunos seriam o Produto da empresa. Por quê? Porque, partindo da definição microeconómica, seriam algo obtido através da conjugação de inputs (i.e.: pessoas sem conhecimento, capital, tecnologia, trabalho) e que sofreriam um processo de transformação ao longo do tempo (aulas, testes, exames, debates), culminando, finalmente, num verdadeiro aluno com X habilitações literárias. As Quantidades seriam, por consequência, o número de alunos "produzidos" em cada ano lectivo. De seguida, olhando para o Preço como a disponibilidade marginal a pagar por cada produto, assumi que deveria ser visto como a média de cada aluno. Isto, porque, tipicamente, alunos com médias mais altas atingem cargos mais elevados e com remunerações mais expressivas. Simultaneamente, se as notas forem um bom indicador da qualidade do aluno, então, continua a fazer sentido achar que o "preço do aluno" é a sua média. No que diz respeito aos Custos da nossa empresa, muitos e evidentes são eles: salários dos professores e dos auxiliares, material escolar, água, luz, telefone, transportes, etc. No lado da Receita, apesar da coisa ser mais drástica, também há algo dizer: propinas dos alunos, vendas no bar, vendas na papelaria, organização de eventos, etc.
No final do dia, eis que chega a parte mais aliciante da empresa: o Lucro. Neste sentido, importa agora perceber que estamos no domínio público e, como tal, talvez não estejamos interessados em fazer as contas à boa moda antiga: Lucro = Receitas (típicas) - Custos. Por quê??? Porque as receitas de uma escola pública devem, a meu ver, ir muito além das propinas, das vendas do bar e da papelaria, ou mesmo da organização de eventos. Incluindo no modelo, mais uma vez, a boa teoria microeconómica, as Receitas são: Preço x Quantidades. Ora, pegando nas definições que fiz inicialmente destes 2 pontos, a Receita será dada por: Média dos Alunos x Quantidade "Produzida" de Alunos. Posto isto, o Lucro verdadeiro de uma escola pública deverá ser: Receitas (como as definimos) - Custos.
Se assim for, o Objectivo da empresa será maximizar o valor da expressão anterior, pelo que, todos estaremos interessados em produzir muitos e bons alunos, obviamente assumindo que a média é um indicador fidedigno da qualidade do aluno.
Depois de toda esta enfadonha análise, uma interessante conclusão me saltou à vista. Afinal, o cartaz estava errado: a escola é mesmo uma empresa! Se todos tentarmos maximizar o lucro desta forma, ela será, aliás, a maior e melhor empresa do mundo.
Este e, sem duvida, um assunto muito interessante. Contudo, tenho pessoalmente uma visao um pouco diferente da exposta.
ReplyDeleteNa minha visao, os alunos nao sao o produto, mas os clientes. O produto seria antes o conhecimento transmitido aos alunos, a forma de pensar, os frameworks.
E a meu ver, e ai mesmo que reside este problema grave e endemico que existe hoje nas escolas portuguesas.
Numa qualquer empresa, o cliente e o centro da atencao. Todos os empreendedores sabem que sem clientes nao existiriam.
Nas escolas publicas portuguesas, os "empreendedores" parecem esquecer-se que sem os clientes eles nao existiam, tao so porque os clientes continuam a chegar, anualmente, as dezenas/centenas/milhares.
As escolas sao assim um antro dos interesses dos professores que, apesar de nao mais serem que meros trabalhadores e prestadores de servicos para os verdadeiros clientes, acabam por passar muito mais tempo na instituicao, e por isso mesmo se acham no direito de definir como os clientes se devem comportar e o que devem ou nao receber.
E esta falta de foco no cliente final que tem minado, a meu ver, a performance das escolas portuguesas, e que tem contribuido para a manutencao dos interesses instalados. E isto e triste.
Eu sou um claro defensor do ensino publico e tendencialmente gratuito, mas o nivel a que se chegou, em que os prestadores de servico nao sao capazes de propor alteracoes ao sistema de avaliacoes, pelo governo proposto, demonstra o nivel a que chegamos.
Para concluir, gostava so de acrescentar que concordo tambem que as escolas sao tendencialmente empresas. Mais acrescentaria que as escolas devem sim procurar o lucro. Ainda que esse lucro nao seja financeiro, um lucro economico, tomando em consideracao o valor total criado para a sociedade com a criacao de pessoas inteligentes, capazes de pensar sobre os problemas da humanidade, capazed de resolver problemas reais, em tempo real, para uma vida real.
Infelizmente na maior parte das escolas, isto nao acontece. Pior, os clientes nao sabem que sao clientes e nao se tratam como tal, nao exigem conhecimento e frameworks de pensamento, etc. Os prestadores de servico acham-se no direito de moldar o produto e os consumidores a sua maneira, e e neste ambiente que as futuras geracoes vao sendo criadas.
Sad...
A escola é uma empresa, mas não é uma qualquer empresa, é uma enorme e obesa monopolista cuja ineficiencia é suportada pelo consumidor final.
ReplyDeletemais ainda. os professores das escolas não universitarias são, em média, (!) os antigos alunos que nunca atingiram nenhum grau extremo de sucesso académico, uma vez que os brilhantes alunos acabam por ir para carreiras no mundo privado, com melhores pagamentos e melhores oportunidades de carreira.
ReplyDeletequer isto dizer que os professores que ensinam a todos os alunos as bases do conhecimento e o modo de pensar sao aqueles que em tempos eram os alunos medianos.
Portanto, temos as nossas crianças a serem ensinadas pelos medianos, muitas das vezes sem interesse pelos assuntos que estão a leccionar, e muitas das vezes sem sequer estarem interessados em dar o next step e motivar os alunos para fazer extra pesquisas e motivar-se por outros assuntos extra aula.
E este é assim a base do nosso sistema de educação. Os melhores alunos de amanha sao ensinados pelos mediocres alunos de ontem.
(uma vez mais, em media! há excelentes professores que optaram por carreiras somente por vocação)