Friday, October 23, 2009

Um Trampolim Chamado Liberdade


Acho que andamos todos doidos!

Abro o jornal e leio títulos afrontosos, ligo a televisão e vejo uma onda de suicídios em massa, acedo à Internet e conheço difamadores, pego num livro e leio Deus apelidado de filho da puta... Afinal, o que vem a ser isto? De quem é a culpa???......[De ninguém!]

Vivemos a maior mentira dos últimos tempos. Achamos que a Liberdade é uma invenção super-sónica da Tomada da Bastilha e usamo-la como um trampolim. Não importa o que dizemos, não importa o que fazemos, não importa quem magoamos, não importa quem matamos, tudo é Liberdade...Somos livres, fazemos o que queremos porque somos livres! Deixámos de ponderar, deixámos de planear, deixamos de reflectir, deixaremos, um dia, de pensar... Porque já não é preciso! Quem é o estúpido que pensa o que diz quando é livre??? Quem é o retrógrado??? Liberdade é dizer o que se pensa, jamais pensar o que se diz! Liberdade é isto e aquilo, Liberdade é tudo, e tudo é Liberdade!

O ser humano criou a lâmpada para se livrar da escuridão, para poder ver mesmo quando o Sol se escondia. Depois, criou luzes tão, tão luminosas que hoje as usa para encandear quem lhe apetece. E o mesmo acontecerá com a Liberdade. Aquilo que se nos apresentou como uma dádiva começa a transformar-se num pesadelo. Esquecemo-nos de deveres e só invocamos direitos. O super-hiper-mega direito à Liberdade está em tudo o que se faz, e isso é que importa. Os deveres são uma chatice - o respeito pelo outro estava na Revolução de 1789 mas perdeu-se na viragem dos séculos. Ao que parece, o nosso espaço é infinitamente grande.

Na verdade, tudo isto é, indubitavelmente, uma coisa muito preocupante! As pessoas acham que podem dizer tudo o que lhes apetece sob o véu inquestionável da Liberdade. Isto é absurdo, completamente repugnante, e um ataque premeditado à dignidade humana. Por muito que custe ouvir, ninguém nasce com o direito de dizer tudo o que quer, nem aqui, nem em lado nenhum. Temos de entender que antes de seres livres, somos seres humanos, com forças e fragilidades, com sentimentos e expressões! Usar a Liberdade para colocar em causa o que nos caracteriza é aberrante e contra-natura. Não podemos desrespeitar e ferir indiscriminadamente aqueles que nos são semelhantes só porque nos apetece, só porque achamos que podemos, só porque achamos que sim. Ser livre é ser responsável, é ter bom-senso. Ser livre é saber ser livre!

A Liberdade deixou de ser um instrumento de verdade e progresso para se transformar numa arma destrutiva. Deixou de ser um mecanismo de protecção para ser uma fonte de ataques. Matámos para sermos livres, e continuamos a matar porque achamos que somos livres de o fazer. O que aconteceu na France Telecom é uma manifestação real daquilo que digo. Pensa-se que tudo se pode dizer, que tudo se pode exigir, e não é assim!

A meu ver, com tanta estupidez em todo o lado, deixámos de ter percepção do espaço do outro, e olhamos em nosso redor como se num deserto estivéssemos, o que é uma patética visão da sociedade. O respeito e o bom-senso são, cada vez menos, ingredientes da expressão verbal. Vivemos ofuscados pelo significado ilegítimo que quisemos atribuir a uma palavra, e transformámos a sociedade numa selvajaria sem nome, onde cada um diz o que pensa sem pensar, primeiro, no que diz. Tudo isto porque nos queremos convencer que podemos dizer tudo o que nos dá na real gana, e assim, de forma fugaz e irreflectida, passámos do 8 ao 80 sem perceber a importância da moderação.

A Liberdade talvez ainda vá sendo a possibilidade que tenho de escrever abertamente este texto, mas não tardará o dia em que isto deixe de ser verdade...Só porque outro ser humano se convenceu que tem a liberdade de me tirar a minha Liberdade!

3 comments:

  1. Sempre me ensinaram na escola que "a nossa liberdade termina onde começa a dos outros". Não sei o que dizem hoje em dia para o Mundo ter enlouquecido desta forma...

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  2. Liberdade, em filosofia, designa de uma maneira negativa, a ausência de submissão, de servidão e de determinação, isto é, ela qualifica a independência do ser humano. De maneira positiva, liberdade é a autonomia e a espontaneidade de um sujeito racional. Isto é, ela qualifica e constitui a condição dos comportamentos humanos voluntários.

    Não se trata de um conceito abstrato. É necessário observar que filósofos como Sartre e Schopenhauer buscam, em seus escritos, atribuir esta qualidade ao ser humano livre. Não se trata de uma separação entre a liberdade e o homem, mas sim de uma sinergia entre ambos para a auto-afirmação do Ego e sua existência. E na equação entre Liberdade e Vontade, observa-se que o querer ser livre torna-se a força-motriz e, paradoxicamente, o instrumento para a liberação do homem.

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  3. Paulo Matos MateiroOct 25, 2009 09:23 AM

    Começo, do geral para o particular - por implicar menos erros e falhas e raciocínio - por dissociar liberdade em duas partes:

    + Liberdade de pensamento; (A)
    + Liberdade de expressão. (B)

    Começando pela primeira, sabemos que é inerente e inata a todos os seres vivos (não sei se só aos racionais, mas isso pouco importa no contexto). Em qualquer contexto histórico-político, social, esta parte é garantida a todos, sem excepção. Até porque o pensamento é feito de forma abstracta, imaterial, só contendo formas e não matéria.

    Liberdade de expressão consiste na transmissão dos pensamentos tomados numa fase à priori. Ou seja, é o tornar quasi material do pensamento de formas. Esta etapa só poderá ser feita se houver condições que o permitam: regimes democráticos, anárquicos, ... ... Em suma, regimes que em si mesmo sejam abertos as todas as opiniões, ideias e ideais.

    Ou seja:

    (B) => (A) Mas,
    (A) poderá não => (B)


    Torna-se difícil, por isto, dissociar um contexto político livre com as duas fases enumeradas.

    Dizer que é insensato ou estúpido as pessoas que outrora pensaram e expressaram as suas opiniões não tem por isso qualquer fundamento, já que estaríamos a dizer que

    (B) poderia não => (A) (por generalização -(demonstrado anteriormente o contrário, por particularização))

    Não poderão ser filtradas as opiniões das pessoas. Se tal acontecesse estaríamos a proibir e a cortar a expressão dos pensamentos das pessoas, coisas que nunca poderia acontecer.

    O filtro terá de ser feito por quem ouve, e não por quem fala. Afinal, poderemos nós, ouvintes, apagar a televisão, despedirmo-nos da france telecom, ou não ler o livro de Saramago.

    Todas as restrições que se possam querer colocar à expressão:

    (B) => (A) Mas,
    (A) poderá não => (B)

    não terão qualquer fundamento lógico.

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