Um dos ramos mais interessantes da matemática aplicada é a Teoria dos Jogos. Nela estudam-se, grosso modo, as interacções estratégicas que ocorrem quando vários agentes procuram optimizar o seu retorno numa determinada situação.
A meu ver, trata-se de um poderoso mecanismo que, uma vez percebido, nos permite pensar de forma tremendamente interessante sobre qualquer interacção do quotidiano. Por conseguinte, será uma inegável vantagem competitiva para a obtenção de um maior retorno, independentemente da sua natureza (quantitativa, ou, qualitativa).
Em termos formais, os agentes são chamados "Jogadores", e a situação que os faz interagir "Jogo"; as decisões que cada um pode tomar são as "Estratégias", ao passo que os respectivos retornos associados são os "Payoffs". É ainda habitual falar-se em "Estratégia Dominante" como sendo a decisão que maximiza o retorno de um dos jogadores, independentemente da decisão tomada pelo outro.
Dada a sua sustentação prática, é legitimamente expectável que possamos aplicar diariamente os conceitos da Teoria dos Jogos em quase todas as situações que nos chamam a interagir. É, aliás, nesse sentido que o texto desta semana reconhece fundamento.
Desde muito cedo que todos somos aconselhados a transmitir o nosso feedback em relação a algo. Assim acontece com a família, com os amigos, ou mesmo, com a escola. No entanto, se nalguns casos é aparentemente óbvio que nada temos a perder em expressar a nossa opinião, noutros o cenário muda de aparato. Agarrando um exemplo "pré-cretácico", pensemos na apresentação de um trabalho à turma, no meio académico. Aquilo que todos estamos habituados a constatar é uma predominância absoluta de comentários positivos face à prestação do indivíduo X ou do grupo Y. Assim sendo, e no sentido de contrariar tal tendência, os professores começam a induzir a necessidade de se apresentarem críticas, ou se quisermos, comentários menos simpáticos. Para criarem um perceptível ambiente de segurança na audiência, citam lugares-comuns ou profundas palavras de sapiência. Por entre esta ou aquela hesitação, as famigeradas críticas começam a surgir, e assim se estabelece o saudável clima de aprendizagem. Nem mais.
Não obstante, várias questões se colocam ao potencial interveniente: (1) Deverá, ou não, participar na discussão e dar o seu feedback? (2) Caso opte por participar, será melhor deixar um comentário de congratulação ou de oposição? Não surpreendentemente, a Teoria dos Jogos tem uma resposta.
Para atacarmos a questão, formalizemos o problema. Por aplicação directa dos conceitos anteriormente expostos, faça-se: "Jogo" - discussão do trabalho; "Jogadores" - (1) aluno que apresentou o trabalho, e (2) aluno que se propõe a apreciá-lo; "Estratégias" - Para o Jogador 1: receber com agrado o comentário, ou, não receber com agrado o comentário; Para o Jogador 2: dar feedback, ou, não dar feedback.
Continuando o nosso processo, procuremos agora aquilo que nos serviu de motivação inicial: o retorno, aliás, optimizar o retorno. Assim, caso optemos por não participar na discussão, o nosso "Payoff" será nulo (Zero), já que não há espaço para uma recepção positiva ou negativa por parte do outro jogador. Caso optemos pela segunda estratégia (dar feedback) o nosso payoff poderá, então, ser diferente. Perante uma recepção com desagrado, este será certamente negativo (em termos pragmáticos, criámos uma potencial inimizade), ao passo que uma recepção com agrado nos poderá, aparentemente, trazer um resultado positivo (conquistámos a simpatia de alguém). No entanto, relembrando que comentários simpáticos são vistos como normais e "esperados", o mais realista será mesmo assumir que, perante tal situação, o retorno não será mais do que nulo.
Colocando tudo em sintonia, eis a "Estratégia Dominante": não dar feedback, já que, independentemente daquilo que acontecer do outro lado, o melhor é, sempre, não dar opinião.
Portanto, fiquem a saber: a menos que do lado de lá esteja a vossa clarividente cara-metade, por quem valha o esforço emitir um parecer simpático como parte inabdicável do processo de sedução, joguem pelo seguro e fiquem calados. Por outras palavras, lembrem-se da Teoria dos Jogos!
Dada a sua sustentação prática, é legitimamente expectável que possamos aplicar diariamente os conceitos da Teoria dos Jogos em quase todas as situações que nos chamam a interagir. É, aliás, nesse sentido que o texto desta semana reconhece fundamento.
Desde muito cedo que todos somos aconselhados a transmitir o nosso feedback em relação a algo. Assim acontece com a família, com os amigos, ou mesmo, com a escola. No entanto, se nalguns casos é aparentemente óbvio que nada temos a perder em expressar a nossa opinião, noutros o cenário muda de aparato. Agarrando um exemplo "pré-cretácico", pensemos na apresentação de um trabalho à turma, no meio académico. Aquilo que todos estamos habituados a constatar é uma predominância absoluta de comentários positivos face à prestação do indivíduo X ou do grupo Y. Assim sendo, e no sentido de contrariar tal tendência, os professores começam a induzir a necessidade de se apresentarem críticas, ou se quisermos, comentários menos simpáticos. Para criarem um perceptível ambiente de segurança na audiência, citam lugares-comuns ou profundas palavras de sapiência. Por entre esta ou aquela hesitação, as famigeradas críticas começam a surgir, e assim se estabelece o saudável clima de aprendizagem. Nem mais.
Não obstante, várias questões se colocam ao potencial interveniente: (1) Deverá, ou não, participar na discussão e dar o seu feedback? (2) Caso opte por participar, será melhor deixar um comentário de congratulação ou de oposição? Não surpreendentemente, a Teoria dos Jogos tem uma resposta.
Para atacarmos a questão, formalizemos o problema. Por aplicação directa dos conceitos anteriormente expostos, faça-se: "Jogo" - discussão do trabalho; "Jogadores" - (1) aluno que apresentou o trabalho, e (2) aluno que se propõe a apreciá-lo; "Estratégias" - Para o Jogador 1: receber com agrado o comentário, ou, não receber com agrado o comentário; Para o Jogador 2: dar feedback, ou, não dar feedback.
Continuando o nosso processo, procuremos agora aquilo que nos serviu de motivação inicial: o retorno, aliás, optimizar o retorno. Assim, caso optemos por não participar na discussão, o nosso "Payoff" será nulo (Zero), já que não há espaço para uma recepção positiva ou negativa por parte do outro jogador. Caso optemos pela segunda estratégia (dar feedback) o nosso payoff poderá, então, ser diferente. Perante uma recepção com desagrado, este será certamente negativo (em termos pragmáticos, criámos uma potencial inimizade), ao passo que uma recepção com agrado nos poderá, aparentemente, trazer um resultado positivo (conquistámos a simpatia de alguém). No entanto, relembrando que comentários simpáticos são vistos como normais e "esperados", o mais realista será mesmo assumir que, perante tal situação, o retorno não será mais do que nulo.
Colocando tudo em sintonia, eis a "Estratégia Dominante": não dar feedback, já que, independentemente daquilo que acontecer do outro lado, o melhor é, sempre, não dar opinião.
Portanto, fiquem a saber: a menos que do lado de lá esteja a vossa clarividente cara-metade, por quem valha o esforço emitir um parecer simpático como parte inabdicável do processo de sedução, joguem pelo seguro e fiquem calados. Por outras palavras, lembrem-se da Teoria dos Jogos!
Eheh, boa! Gostei muito deste post, realmente a teoria dos jogos é fascinante, especialmente quando aplicada a contextos fora do habitual como este.
ReplyDelete